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Diário de leitura Os Miseráveis #2

Dando continuidade à leitura de Os Miseráveis, acabo de terminar o segundo volume, e, como prometido, retorno aqui para compartilhar minhas impressões.

“Este livro é um drama, cuja primeira personagem é o infinito. A segunda é o homem.”

A palavra que define esse volume, pra mim, é reviravolta. Não pelo enredo em si, mas pelo ritmo da narrativa. Logo no início, passei por um capítulo bastante lento, apresentando toda a dinâmica do convento e das irmãs que lá moravam, para logo em seguida mergulhar num ritmo frenético, em que páginas e mais páginas se passaram sem que eu percebesse, apenas por desejar saber logo como toda a aventura de Jean Valjean e Cosette se resolveria.

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Em seguida, ao iniciar a terceira parte da história, quase perdi a vontade de ler. Tudo ficou mais lento do que o livro que descreve a Batalha de Waterloo. Foi realmente difícil passar pela parte onde conhecemos o Sr. Gillenormand, e toda a apresentação inicial de Marius. Passei praticamente o mês todo nessas primeiras duzentas páginas deste volume. Felizmente, depois delas, o ritmo anterior se restabeleceu, e fiquei curiosíssima para continuar a leitura. Tanto é que li as últimas trezentas páginas em praticamente três dias.

Victor Hugo segue nos apresentando novos personagens para depois nos revelar a verdade sobre eles, e isso é brilhante. Confesso que me surpreendi com algumas identidades reveladas, mesmo já tendo assistido ao filme várias e várias vezes. A experiência de ler o livro dessa história que tanto amo está sendo riquíssima.

Mesmo com seus pontos baixos, que quase me fizeram deixar a leitura para outro momento, ainda digo que Os Miseráveis é o melhor livro que já li na vida, e que Victor Hugo é meu escritor favorito. É mais do que incrível a capacidade que ele teve de criar uma narrativa tão crua, tão tocante, e ao mesmo tempo tão crítica.

“Deus emprega os meios que lhe apraz para chegar aos seus fins; o convento e Cosette contribuíam para conservar e completar em Jean Valjean a obra do bispo.”

Na miséria, os corpos apertam-se uns nos outros, como se tomados pelo frio, mas os corações se afastam.”

“Ora, para nós, na história em que a bondade é a pérola rara, quem foi bom quase excede quem foi grande.”.

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Diário de Leitura: Os Miseráveis #1

Com suas quase 1500 páginas, Os Miseráveis é considerado uma das maiores e mais importantes obras literárias, figurando em várias listas de “livros para ler antes de morrer” ou “livros essenciais da literatura mundial”.

Publicado em 1862, em sete cidades europeias ao mesmo tempo, a obra prima de Victor Hugo ainda gera muita expectativa (e nem sempre boas) em muitos de seus futuros-leitores.

Nos meus planos de início de ano, decidi que 2016 será o ano das grandes leituras, e não poderia deixar Os Miseráveis fora da minha meta. Animada pela Leitura Coletiva proposta pelos blogs Livro&Café e Subindo no Telhado, decidi me aventurar neste clássico logo agora!

Estou lendo o livro em uma edição antiga do Círculo do Livro, que pertence à minha mãe e é divida em três volumes. Desse modo, pretendo compartilhar minhas impressões de leitura ao término de cada tomo, e é por isso que estou aqui hoje. Acabo de finalizar a leitura do primeiro volume, e tenho tanta coisa na cabeça que preciso de um lugar para desabafar (esse é realmente o intuito deste post, apenas expor meus comentários e pensamentos a respeito do que já li, mesmo que numa visão geral eles não façam muito sentido).

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“Enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis.”

Ao contrário do musical (pelo qual sou apaixonada, devo acrescentar), não começamos o livro conhecendo Jean Valjean. Para mim foi uma surpresa me deparar com páginas e mais páginas a respeito do Bispo de Digne, um clérigo bastante inusitado, eu diria. É um homem extremamente bom e generoso, que realmente vive de acordo com as leis de Deus. Mais do que uma crítica à postura da igreja, vejo o Bispo como um personagem criado especialmente para catequizar o leitor. A todo momento é mostrado como o bispo é um homem altruísta, que realmente pratica o que prega e entrega tudo nas mãos de Deus. A fé deste homem é exemplar, e gosto de tentar trazê-lo um pouco para a atualidade: vejo muito do Bispo de Digne no Papa Francisco e suas posturas com relação a muitos aspectos da igreja atual, principalmente ao negar os luxos que seu cargo lhe atribuem.

“Para ele, Deus não era objeto de análise, era motivo de deslumbramento.”

Em seguida conhecemos Jean Valjean, um retrato de como o homem é produto do meio em que vive. Era um homem de essência honesta e muito boa, que cometeu um erro num momento de desespero e passou praticamente 20 anos da sua vida sofrendo as consequências desse ato. Todo esse tempo no lugar em que esteve transformou seu coração e fez com que tornasse um homem rude, amargo e cheio de ódio.

“De sofrimento em sofrimento, chegou, pouco a pouco, à convicção de que a vida é uma guerra, guerra em que o vencido era ele.”

Um encontro entre esses dois personagens é a oportunidade que a vida dá a Jean Valjean de se redimir por seu passado, e devo dizer que é extremamente emocionante. Todo o conflito interno de Valjean e seu momento de redenção foram incríveis!

Após isso, temos um corte da narrativa para conhecer novos personagens, dentre eles Fantine, que dá título a essa primeira parte do livro. Um ponto muito importante sobre ela, que é mencionado várias e várias vezes, são seus maiores tesouros: seus cabelos e dentes. Fantine é uma moça inocente vivendo seu primeiro amor, que infelizmente tem um trágico fim: ela se descobre sozinha, e ainda por cima grávida. Se na sociedade de hoje já é difícil ser mãe solteira, fico imaginando na época deste livro. Fantine é o retrato da decadência do ser humano em prol de um bem maior. São trechos muito tristes esses que descrevem tudo o que ela passa, uma outra boa alma arruinada pelas circunstâncias.

“Que vem a ser esta história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
A quem? À miséria.
À fome, ao frio, ao isolamento, à nudez. Dolorosa negociação! Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita!”

Ao mesmo tempo que vemos a decadência de Fantine, conhecemos também Madeleine, um senhor de visão empreendedora que conseguiu fazer a cidade de Montreuil-Sur-Mer prosperar, enriquecendo neste processo. Com todo o prestígio por ser dono da fábrica que trouxe tanto bem ao local, Madeleine é convidado ao cargo de prefeito da cidade. Entretanto, mesmo com essa ascensão social, continuou sendo o mesmo homem generoso e muito bem quisto pelos habitantes locais.

E é ai que entra em cena nosso antagonista, o temido policial Javert, que não possui o menor senso de compaixão, só se sensibiliza pelas causas dos ricos e obedece cegamente às leis dos homens. É revoltante ver essa ignorância dele, mas este é um dos personagens mais bem construídos do livro, que consegue nos despertar tantas emoções conflitantes.

“Que dava não sei que estranha grandeza àquele homem por quem as leis da honra eram tão desusadamente interpretadas.”

É quando esses três últimos personagens se encontram que acontecimentos muito importantes e decisivos tem lugar: Fantine é levada presa, e Madeleine usa de seu poder como prefeito para impedir essa prisão. Javert sente-se extremamente humilhado, e aproveita a ocasião e o rancor para concretizar uma denúncia que há muito tempo suspeitava, que Madeleine era na verdade um foragido da justiça. Essa denúncia chega ao conhecimento do prefeito, e os capítulos que se seguem são absolutamente sensacionais.

“Deus agita a alma, como agita o oceano.”

Foi nesse momento que percebi como Victor Hugo “não dá ponto sem nó”. Em suas famosas digressões há sempre pequenos detalhes que se relacionam com o enredo em si. Vou parecer repetitiva, mas me faltam palavras para descrever quão incrível está sendo esta leitura.

“Mentir é o absoluto do mal. Não é possível mentir pouco; quem mente mente a mentira toda.”

Outros personagens apresentados nessa parte são os Thénardiers, donos de uma estalagem, que por acaso conhecem Fantine e aceitam ficar com sua filha mediante um pagamento mensal. São pessoas horrendas, sem escrúpulos e totais vigaristas, os principais culpados pela decadência da pobre Fantine, e, para ajudar, escravizam a menina Cosette que ficou a seus cuidados.

“Aquele homem e aquela mulher eram a raiva e a astúcia casadas, formando uma parelha medonhamente terrível.”

Já Cosette… Pobre Cosette. A maior representação da miséria até agora. Além de miserável na questão material, Cosette também é miserável emocionalmente. Não por sua escolha ou falta de capacidade, mas porque nunca lhe foi proporcionada a chance de conhecer algo diferente do ódio com que os Thénardier lhe tratam. Foi realmente triste e doída de ler essa parte sobre ela.

“Cosette meditava tristemente, pois, embora tivesse apenas oito anos, havia já sofrido tanto que às vezes punha-se a refletir com o ar lúgubre de uma velha.”

E então temos de volta Jean Valjean! Um homem transformado e totalmente diferente  do que conhecemos no início. O primeiro momento de redenção do personagem não tem nem de longe o mesmo impacto do que o que ocorre agora, ao fim do primeiro volume do livro. O encontro entre esses dois, Valjean e Cosette, realmente teve um toque divino. Duas almas necessitadas que se encontraram uma na outra. Foi lindo.

“A entrada daquele homem no destino daquela criança fora a chegada de Deus.”

O finalzinho deste volume foi, para dizer em apenas uma palavra, angustiante. Depois de tantas tragédias na vida dessas duas almas, ainda falta muito para que elas consigam enfim um momento de paz.

Victor Hugo já é meu escritor favorito, com suas críticas sutis e ao mesmo tempo escancaradas. É o tipo de homem que conhece as feridas da sociedade e está lá para cutucá-las e nos fazer refletir acerca disso.

Com isso, finalizo aqui este primeiro Diário de Leitura, dizendo muito menos do que o que passa pela minha cabeça, mas o que acredito ser essencial para relembrar dessa leitura tão incrível.

Beijos!